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Publicado em: 16 de maio de 2020

Medo da busca por atendimento médico na pandemia aumenta número de paradas cardíacas fora do hospital

Cardiologista alerta que, de forma segura, pacientes precisam manter acompanhamento médico regular durante o isolamento social

A despeito da pandemia da Covid-19, médicos reforçam a necessidade de manter o tratamento de doenças como a hipertensão, o que aumenta, por exemplo, o risco de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). No isolamento social, pacientes estão deixando de fazer o acompanhamento ou retardando a busca por atendimento médico, o que tem reduzido o número de hospitalizações por infarto e aumentado o volume de tratamentos tardios e a ocorrência de paradas cardíacas fora do hospital.

O alerta é do cardiologista Eduardo Darzé, diretor Médico e de Qualidade do Hospital Cárdio Pulmonar diante da proximidade do Dia Mundial de Combate à Hipertensão – 17 de maio. “As pessoas precisam de cuidados e atenção médica regular, pois infartos e AVCs continuam acontecendo e a busca tardia por tratamento ou atendimento de emergência pode levar a quadros graves”, diz o especialista.

Confira algumas dicas importantes a seguir:

1. Por que, na prática, o paciente com hipertensão é considerado integrante do grupo de risco para infecção pelo novo coronavírus?

O que nós sabemos é que a hipertensão é muito frequente em pacientes hospitalizados com Covid-19. Se a hipertensão, de fato, contribui para o risco de desenvolver uma forma grave da doença é controverso. As mesmas pessoas que têm maior probabilidade de ter hipertensão também têm maior chance de estar em idade avançada e ter outros problemas mais graves de saúde e, portanto, maior chance de adoecer gravemente por qualquer problema, inclusive Covid-19.

2. O que aumenta o risco de complicações é a hipertensão ou as outras patologias graves que coexistem com a hipertensão na mesma população?

Nos poucos estudos que controlaram para essas variáveis, a hipertensão não foi considerada um fator de risco para complicações. A maioria dos hipertensos que adquiriu a Covid-19 se recuperou plenamente. Uma analogia para que o conceito fique mais claro: Pessoas com câncer de pulmão tomam mais café que aqueles sem câncer de pulmão. Mas quem fuma toma mais café do que aqueles que não fumam. O que causa câncer de pulmão? O cigarro ou o cafezinho?

3. Que outras doenças cardiovasculares necessitam de maior atenção na associação ao novo coronavírus?

Todas as doenças cardiovasculares que, de alguma forma, diminuem a capacidade do indivíduo de enfrentar uma doença grave merecem nossa atenção. A disfunção do coração e a insuficiência cardíaca são exemplos claros. A obstrução das artérias do coração (doença coronária), história prévia de infarto ou AVC também.

4. Quais os cuidados que o paciente hipertenso precisa ter e quais os sinais de alerta devem ser observados com maior atenção, sobretudo pelos mais idosos e que estão sós em casa por conta do isolamento social?

Os cuidados com a hipertensão durante a pandemia são os mesmo. Usar os medicamentos de forma regular e ininterrupta, evitar excesso de sal, de álcool e de peso. O controle da pressão também deve ser feito da mesma forma. Se a pressão do paciente estava bem controlada, a cada 2-3 meses é importante realizar um conjunto de medidas da pressão e enviar para o médico, pois elevações da pressão são frequentemente assintomáticas e é preciso medir para garantir o controle adequado.
Às vezes, alguns pacientes podem sentir uma dor de cabeça localizada tipicamente na nuca e isso pode ser um indicativo de que a pressão não está bem.

5. Além do AVC e infarto, que outros problemas o descontrole da hipertensão pode causar?

A hipertensão aumenta o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca, insuficiência renal levando à diálise e a aneurismas. Mas é importante enfatizar que esses problemas acontecem quando a hipertensão permanece mal controlada por muitos meses ou anos. Quando bem controlada, os riscos se tornam muito mais baixos. Além disso, uma pressão elevada raramente deve ser tratada como uma emergência com necessidade de hospitalização. Pressões alteradas devem ser confirmadas com múltiplas medidas ao longo de dias e comunicadas ao médico. Este fará os ajustes nas medicações, o que, por sua vez, lentamente controlarão a pressão.
6. Os medicamentos de rotina para controle da hipertensão devem ser mantidos mesmo em caso de surgimento de sintomas respiratórios?
Sim. Nesse momento, a recomendação é manter o uso de todas as medicações regulares para o tratamento da hipertensão. A suspensão ou troca de anti-hipertensivos sem a orientação do médico podem trazer complicações sérias.

7. Esses medicamentos podem resultar interações com antitérmicos, analgésicos, anti-eméticos?

Alguns medicamentos para hipertensão e anti-inflamatórios aumentam os níveis de uma enzima conhecida como ACE2, que é utilizada pelo coronavírus para entrar nas células dos pulmões e coração. Essa observação já havia sido feita em epidemias de outros coronavírus causadores de infecção pulmonar grave. Não há, no entanto, qualquer evidência de que o uso desses medicamentos aumenta o risco de infecção ou a gravidade da Covid-19.
O artigo publicado pela revista científica britânica The Lancet, e frequentemente compartilhado em mídias sociais, não traz qualquer resultado de pesquisas, apenas levanta uma questão sobre essa possível associação entre o uso desses medicamentos e infecções por coronavírus. Ao contrário, três estudos recentes com milhares de pacientes não demonstraram qualquer associação entre esses importantes anti-hipertensivos e o risco de aquisição da Covid-19 ou desenvolvimento de formas graves da doença.

8. Os medicamentos para aliviar sintomas da Covid-19 podem causar algum dano ao paciente ou à ação dos anti-hipertensivos?

Anti-inflamatórios como ibuprofeno são frequentemente utilizados para febre ou dor. Mas todas as sociedades médicas no mundo sempre recomendaram parcimônia e cuidado no seu uso, pois esses remédios podem piorar a função dos rins e do coração, descontrolar a pressão arterial e causar sangramentos. Portanto, independentemente de uma possível, e não demonstrada, associação com o coronavírus, esse grupo de medicamentos deve ter o uso restrito à menor dose e ao menor tempo possível, particularmente em idosos e portadores de doenças crônicas.

9. Qual a hora de buscar a emergência? Alguns pacientes estão tendo complicações em casa com medo de buscarem a emergência e se contaminarem.

Esse é um ponto que nos preocupa muito. A despeito da pandemia, as pessoas continuam precisando de cuidados e atenção médica regular. Infartos e AVCs continuam acontecendo e que se observa em todos os países é uma redução no número de hospitalizações por infarto, uma elevação no número de tratamentos muito tardios para o infarto e um aumento no número de paradas cardíacas fora do hospital.
Por conta do medo de adquirir a Covid-19, as pessoas estão permanecendo em casa com doenças graves que precisam de tratamento rápido (há um relato de caso publicado recentemente nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia que ilustra bem essa situação).

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