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Publicado em: 17 de março de 2020

ARTIGO – COVID 19: Compreensão, bom senso e colaboração

ARTIGO – COVID 19: Compreensão, bom senso e colaboração

O primeiro caso de COVID-19 no Brasil foi confirmado no dia 26/2 e desde então não se fala em outra coisa. Existem aqueles que se negam a acreditar na pandemia e se mantêm céticos e críticos de supostos exageros da mídia. Outros, dramáticos e catastróficos, preveem o apocalipse. De certo, ainda temos muito a aprender sobre como essa infecção causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) se comportará no Brasil e quais serão as melhores estratégias de enfrentamento. Por isso, como qualquer doença nova, a COVID-19 está cercada por dúvidas, incertezas e preocupações.

Doenças antigas não costumam chamar nossa atenção ou mobilizar nossas emoções. Boa parte da população brasileira, por exemplo, ignora a gripe e negligencia sua vacinação, pois já sabe o que esperar e está acostumada com sua ocorrência anual durante o Inverno – apesar de milhares de mortes causadas por essa infecção todos os anos no Brasil.

O mesmo acontece com a malária, responsável por mais de 400.000 mortes por ano no mundo, e com a dengue, que no Brasil, apenas nas primeiras 7 semanas de 2020, afetou mais de 180.000 pessoas. Por outro lado, as estatísticas mundiais da COVID-19 apontam para 185.000 casos com 7.500 mortes. Apesar das discrepâncias, pouco se ouve, se diz ou se discute sobre malária ou dengue.

A comparação não tem o intuito de minimizar a importância do novo coronavírus, mas dar contexto e perspectiva a essa situação, trazendo informações confiáveis e ponderadas sobre o alcance estimado dessa pandemia e o potencial de dano causado às pessoas e ao sistema de saúde.

A razão para tanta preocupação com a pandemia de COVID-19 tem a ver com o fato de o vírus ser novo – não há imunidade contra ele – e com sua alta capacidade de transmissão de uma pessoa para outra. Essas duas características têm produzido um número muito elevado de casos da doença em um espaço de tempo muito curto, superando a capacidade dos sistemas de saúde de atender a essa demanda.

Nesse contexto, os profissionais de saúde precisam de particular atenção e cuidado, pois estão frequentemente expostos a pessoas infectadas. O contágio pelo vírus e o subsequente afastamento desses profissionais das suas atividades geram um estresse ainda maior no sistema. No norte da Itália, por exemplo, o número de casos subiu tão rapidamente em 3 semanas que não houve leitos hospitalares, médicos ou equipamentos básicos de proteção suficientes para atender a população acometida.

O segundo motivo de preocupação é o grupo de pacientes mais vulneráveis. Apesar de mais de 80% dos casos de COVID-19 serem leves e muito semelhantes a um resfriado comum, pessoas idosas ou portadoras de doenças cardíacas ou pulmonares estão particularmente susceptíveis a desenvolver a forma grave. De fato, a maior parte das mortes causadas pela doença está restrita a esse grupo de pacientes. Essa população requer precauções redobradas e cuidados especiais.

Com esse entendimento, ficam mais claras as razões para as iniciativas de contenção mais drásticas como cancelamento de eventos, quarentenas e suspensão de aulas. As mesmas razões sustentam as recomendações de evitar lugares de grande circulação e aglomeração de pessoas, e de isolamento em ambiente doméstico de pacientes com sintomas respiratórios com ou sem confirmação diagnóstica.

Países que tiveram sucesso no combate ao vírus como Coreia do Sul e Japão aplicaram essa política de distanciamento social com rigor e evitaram o aumento acelerado do número de casos. O objetivo principal dessa política é “achatar a curva”, o que significa evitar a disseminação rápida da doença para que os casos novos se espalhem por um período mais longo de tempo.

A importância de “achatar a curva” é permitir um melhor equilíbrio entre demanda de atendimento e oferta de serviços de saúde. Nesse cenário as instituições de saúde conseguirão organizar melhor os seus recursos e não haverá escassez de mão de obra, leitos ou equipamentos.

Ainda há um terceiro motivo para preocupação. Alguns fabricantes e comerciantes têm aplicado um aumento abusivo nos preços de luvas, máscaras e álcool gel. Além disso, o medo de contágio tem levado alguns profissionais de saúde e parte da população a adquirir e utilizar esses insumos de forma irracional e sem base científica. Esse comportamento, motivado pelo oportunismo e pelo pânico, ameaça seriamente o acesso a esses materiais fundamentais para o controle da pandemia.

Através de uma análise objetiva baseada em fatos e dados científicos é possível ter uma real compreensão sobre o que significa, de fato, a COVID-19 para o Brasil e para o mundo. É preciso deixar de lado negacionismos, catastrofismos, oportunismos e outras atitudes que contribuem apenas para aprofundar o ambiente de caos, e concentrar nossa energia em torno de um esforço coordenado para definir as melhores estratégias de enfretamento dessa pandemia. O momento não é de pânico, imprudência ou ganância, mas de bom senso, atenção e colaboração. Todos nós temos um importante papel a cumprir nessa guerra.

Eduardo S. Darzé
Médico cardiologista – Diretor Médico e de Qualidade do Hospital Cárdio Pulmonar

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